O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva monta uma estratégia de comunicação para minimizar os efeitos positivos da decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida norte-americana, anunciada na noite de quinta-feira (28), prevê sanções a empresas que mantenham relações com as facções, bloqueio de bens nos EUA e cancelamento de vistos de integrantes dos grupos.
Após dezoito horas de debates internos, o Palácio do Planalto define reação oficial. Lula passa a afirmar, em evento realizado em Sergipe, que o CV e o PCC representam terrorismo para as comunidades brasileiras, abandonando a posição anterior de que as facções buscavam apenas lucro. Paralelamente, o presidente apresenta a decisão norte-americana como uma ameaça à soberania nacional.
Integrantes do governo reforçam a linha comunicacional. O vice-presidente Geraldo Alckmin sugere que empresas brasileiras podem sofrer sanções e Fernando Haddad, pré-candidato ao governo paulista, indica possível enfraquecimento da troca de informações policiais com os EUA. Nota da Secretaria de Comunicação menciona que o sistema de pagamentos Pix poderia ser alvo de retaliação, argumento repetido por parlamentares e influenciadores alinhados ao Executivo.
Em sentido contrário, opositores e especialistas em segurança pública veem na nova classificação oportunidade para ampliar cooperação internacional. Segundo o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, a medida permite punir instituições financeiras envolvidas na lavagem de dinheiro das facções e identificar criminosos que atuam em países vizinhos, como Paraguai, Colômbia, Bolívia e Peru. Analistas citam experiências como o Plano Colômbia (2000-2015) e ações contra cartéis mexicanos a partir de 2025 como exemplos de apoio militar, tecnológico e financeiro que os EUA poderiam oferecer ao Brasil.
Especialistas destacam que o reforço à investigação financeira, o uso de satélites, drones e a atuação de agências como CIA e DEA podem ampliar o rastreamento de rotas internacionais de drogas, garimpo ilegal e exploração clandestina de madeira, sem implicar ocupação militar ou controle externo da segurança pública brasileira.
No campo jurídico, o advogado Alex Erno Breunig observa que líderes de facções podem responder à Justiça norte-americana por terrorismo caso haja reflexos diretos nos EUA, mas lembra que a Constituição brasileira proíbe a extradição de cidadãos natos. Medidas contra autoridades brasileiras ligadas a grupos criminosos, se existirem, ficariam restritas a sanções econômicas e diplomáticas.
A construção da narrativa governista inclui associar o senador Flávio Bolsonaro à interferência externa. Em comunicado, o Planalto considera deplorável que membros da família Bolsonaro tenham viajado aos EUA para defender intervenção estrangeira. A expectativa é que o discurso de defesa da soberania fragilize politicamente o senador, pré-candidato à reeleição do pai.
Com informações de Gazeta do Povo
