A possibilidade de encerramento das eleições para governador já no primeiro turno em até 19 unidades da Federação cria um obstáculo adicional para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na etapa decisiva da sucessão presidencial, marcada para 25 de outubro. Com menos pleitos estaduais em andamento, parte da estrutura partidária que impulsiona a ida do eleitor às urnas tende a perder força justamente quando os presidenciáveis precisarão ampliar o comparecimento.
Felipe Nunes, diretor da Quaest, afirma que estados que resolvem a disputa ao Palácio dos Bandeirantes locais na primeira rodada costumam registrar abstenção aproximadamente dois pontos percentuais maior no segundo turno. Na avaliação do pesquisador, o impacto varia de acordo com o desempenho de cada candidato em cada estado: se ocorrer nas unidades federativas em que Flávio Bolsonaro é favorito, o prejuízo recairá sobre ele; nas que Lula lidera, o efeito seria inverso.
O maior colégio eleitoral, São Paulo, concentra uma das principais atenções. Levantamento Real Time Big Data de 24 de agosto mostra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) com 52 % contra 35 % de Fernando Haddad (PT) e indica cenário viável de vitória ainda no primeiro turno. No mesmo estado, a pesquisa registra Flávio Bolsonaro com 38 % e Lula com 33 %. Dirigentes do PL avaliam que, mesmo reeleito antecipadamente, Tarcísio seguirá engajado na campanha presidencial, que também conta com o prefeito paulistano Ricardo Nunes (MDB). Durante agenda de campanha, o governador declarou que o palanque local permanecerá ao lado do candidato do PL.
Em Santa Catarina, o quadro é ainda mais favorável à definição imediata. A Quaest, em 24 de agosto, apontou Jorginho Mello (PL) com 50 % das intenções de voto, ante 17 % de João Rodrigues (PSD), 4 % de Gelson Merísio (PSB) e 2 % de Marcus Sodré (PSTU). Nas simulações de segundo turno, Mello marca 56 % contra 24 % de Rodrigues e 63 % a 16 % sobre Merísio.
Outros estados também podem liquidar a fatura em 6 de outubro. Em Roraima, a Quaest mediu Arthur Henrique (PL) com 60 % e Soldado Sampaio (Republicanos) com 27 %. No Maranhão, Eduardo Braide (PSD) tem 44 %, 19 pontos à frente de Orleans Brandão (MDB). No Amapá, pesquisa Real Time Big Data de 8 de setembro indica Dr. Furlan (PSD) com 62 % contra 31 % do governador Clécio Luís (União). No Piauí, o atlasIntel de 3 de setembro registra Rafael Fonteles (PT) com 62,4 % ante 20,9 % de Joel Rodrigues (PP).
Para o cientista político Elias Tavares, a ausência de segundo turno estadual retira uma “locomotiva” que tradicionalmente puxa o eleitorado, embora governadores eleitos antecipadamente possam redirecionar suas máquinas para o pleito nacional.
Além desses exemplos, em oito estados — Pernambuco, Ceará, Bahia, Pará, Alagoas, Mato Grosso, Rondônia e Sergipe — a disputa está polarizada entre dois contendores, o que também eleva a chance de decisão precoce. O tema tem peso especial no Nordeste, onde Bahia, Ceará e Pernambuco figuram como redutos do PT. Nessas praças, os governadores Jerônimo Rodrigues e Elmano de Freitas tentam a reeleição enfrentando, respectivamente, ACM Neto (União Brasil) e Ciro Gomes (PSDB), enquanto em Pernambuco a corrida opõe Raquel Lyra (PSD) a João Campos (PSB).
Em outros cinco estados — Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul — existe abertura para segundo turno, mas a vantagem dos líderes sugere possibilidade de vitória já na largada. No Paraná, pesquisa Paraná Pesquisas de 2 de setembro mostra Sergio Moro (PL) com 45 %, Requião Filho (PDT) com 24 % e Sandro Alex (PSD) com 17,5 %. No Rio de Janeiro, levantamento do mesmo instituto, realizado entre 5 e 7 de setembro, apresenta Eduardo Paes (PSD) com 43,5 %, Douglas Ruas (PL) com 20,3 % e Anthony Garotinho (Republicanos) com 9,8 %. Em cenário sem Garotinho, Paes sobe para 47,4 % e Ruas vai a 22,7 %.
Elias Tavares pondera que a diminuição da mobilização não implica necessariamente retração de votos, mas admite risco moderado. O cientista político Magno Karl, do movimento Livres, acrescenta que a abstenção costuma ser maior entre eleitores de renda e escolaridade mais baixas, grupos nos quais Lula concentra apoio, o que poderia afetar mais diretamente a candidatura petista. Ele recorda, porém, que em 2022 o Rio de Janeiro teve acréscimo de eleitores no segundo turno presidencial, mesmo após a reeleição de Cláudio Castro (PL) no primeiro turno.
A necessidade de evitar crescimento da abstenção se torna mais premente diante do equilíbrio captado pela pesquisa BTG/Nexus divulgada em 8 de setembro, que registra Flávio Bolsonaro com 46 % contra 45 % de Lula, empate dentro da margem de erro de dois pontos.
Métodos das sondagens citadas:
• Real Time Big Data — São Paulo: 2 000 entrevistas entre 19 e 22 de agosto; margem de erro de 2 pontos e confiança de 95 %; registrada sob SP-01347/2026 e BR-06537/2026.
• Quaest — Santa Catarina: 804 entrevistas de 20 a 23 de agosto; margem de 3 pontos e confiança de 95 %; protocolo SC-00517/2026.
• Quaest — Roraima: 804 entrevistas de 23 a 26 de agosto; margem de 3 pontos e confiança de 95 %; protocolo RR-04765/2026.
• Quaest — Maranhão: 900 entrevistas de 20 a 23 de agosto; margem de 3 pontos e confiança de 95 %; protocolo MA-02558/2026.
• Real Time Big Data — Amapá: 1 600 entrevistas de 3 a 7 de setembro; margem de 2 pontos e confiança de 95 %; protocolo AP-04000/2026.
• atlasIntel — Piauí: 1 622 entrevistas on-line de 28 de agosto a 2 de setembro; margem de 2 pontos e confiança de 95 %; protocolos PI-03771/2026 e BR-03636/2026.
• Paraná Pesquisas — Paraná: 1 280 entrevistas presenciais entre 31 de agosto e 2 de setembro; margem de 2,8 pontos e confiança de 95 %; protocolo PR-03399/2026.
• Paraná Pesquisas — Rio de Janeiro: 1 600 entrevistas entre 5 e 7 de setembro; margem de 2,5 pontos e confiança de 95 %; protocolo RJ-01671/2026.
• BTG/Nexus: 2 002 entrevistas de 4 a 7 de setembro; margem de 2 pontos e confiança de 95 %; protocolo BR-06790/2026.
Com informações de Gazeta do Povo
