O Exército Brasileiro colocou em prática, em abril, a Política de Transformação que guiará a força terrestre até 2043. O documento, elaborado na gestão do comandante Tomás Paiva, responde às mudanças observadas nas guerras na Ucrânia e no Irã e redireciona investimentos para drones, sistemas de sensores, mísseis e defesas antiaéreas, considerados mais compatíveis com o orçamento nacional do que plataformas de alto custo, como submarinos e caças.
Nesta fase inicial, militares realizam o levantamento de ameaças e das formas de combatê-las. Oficiais ouvidos sob reserva afirmam que a tropa ainda se preparava para conflitos do século passado e reconhecem a necessidade de adequação. Na avaliação do coronel da reserva Paulo Filho, colunista da Gazeta do Povo, o país já possuía capacidade superior à dos vizinhos sul-americanos, mas precisava preencher lacunas tecnológicas para proteger infraestrutura crítica e a população diante de ameaças maiores.
Drones ocupam posição central na nova política. A classificação adotada divide os equipamentos em quatro categorias. As duas primeiras abrangem modelos de pequeno porte usados para reconhecimento, monitoramento de tropas, lançamento de granadas e missões kamikaze. As categorias três e quatro compreendem aeronaves de longo alcance, capazes de cobrir milhares de quilômetros e executar ataques, alternativa vista como viável para nações sem linha de produção de mísseis em escala. Delegações brasileiras visitaram fabricantes estrangeiros, como os da Turquia, após constatarem, no conflito ucraniano, o impacto dessas aeronaves de baixo custo contra alvos de alto valor.
Paulo Filho aponta forte intenção de fabricar drones no país. Segundo ele, a produção local reduziria riscos de desabastecimento em crises, situação vivida pela Ucrânia com alterações políticas nos Estados Unidos, e abriria mercado para exportação na América do Sul e em outras regiões. A preocupação também abrange o uso de drones por grupos armados. Na Colômbia, autoridades registraram cerca de 60 militares mortos em ataques com esses dispositivos em 2024.
A estratégia enfatiza a criação de uma malha integrada de sensores. A conclusão e o aprimoramento do Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras) constituem passo inicial. A rede deverá compartilhar dados em tempo real entre Exército, Marinha e Aeronáutica, permitindo detecção de ameaças aéreas, marítimas, terrestres e cibernéticas, inclusive bombardeios com mísseis e enxames de drones. O objetivo de longo prazo envolve sensores quânticos capazes de captar assinaturas eletromagnéticas mínimas, tecnologia que, segundo fonte do Exército, teria possibilitado aos Estados Unidos localizar um aviador em território iraniano neste ano ao identificar batimentos cardíacos.
A defesa antiaérea passa a ser considerada pilar fundamental. Atualmente, o país dispõe majoritariamente de radares voltados à aviação civil e de poucas baterias de curto alcance associadas à aviação de caça. O Programa Estratégico Astros 2020 foi renomeado Astros-Fogos e passou a integrar artilharia de foguetes, mísseis, monitoramento e proteção aérea, incorporando inteligência artificial e mísseis com alcance de até 300 quilômetros. Parte das capacidades será adquirida no exterior com cláusulas de transferência de tecnologia, pois a indústria nacional ainda não produz todos os sistemas necessários.
Blindados, artilharia convencional e treinamento de tropas serão mantidos como base da força. Entretanto, haverá reotimização de recursos: o número de projetos estratégicos cairá de 13 para 6, e unidades localizadas em áreas consideradas seguras serão deslocadas para regiões mais suscetíveis ou desativadas. Em 2023, durante a tensão entre Venezuela e Guiana, o Exército já aplicou a lógica de mobilizar rapidamente tropas, blindados e equipamentos para Roraima.
O efetivo em mais elevado grau de prontidão, com os melhores equipamentos e capacidade de resposta rápida, será reduzido de 40% para 20%. Oficiais envolvidos no processo afirmam que a intenção é construir capacidade de dissuasão compatível com a realidade econômica brasileira, mantendo o foco em inteligência, mobilidade e concentração de forças em pontos sensíveis.
Com informações de Gazeta do Povo
