O colunista Reinaldo Azevedo publicou texto no Metrópoles no qual compara a expressão “complexo de vira-latas”, criada pelo dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues em 31 de maio de 1958, a um editorial divulgado por O Globo neste domingo que prevê a bancarrota do Brasil.
No artigo, Azevedo lembra que Rodrigues cunhou o termo em crônica esportiva veiculada na revista Manchete Esportiva, às vésperas do embarque da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo da Suécia. O colunista informa que o texto original está na página 61 do livro “À Sombra das Chuteiras Imortais”, organizado por Ruy Castro, com acesso gratuito.
Segundo Azevedo, a crônica de 1958 descreveu o sentimento de inferioridade dos jogadores brasileiros após derrotas anteriores, incluindo o revés para a Hungria na Copa de 1954, o trauma do Maracanazo de 1950 e a perda por 4 a 2 para a Inglaterra em amistoso disputado em Wembley em 9 de maio de 1956. De acordo com o colunista, Rodrigues classificou essa postura como “complexo de vira-latas”.
O texto observa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva retomou recentemente a mesma expressão para acusar a família Bolsonaro de submeter o país aos Estados Unidos.
Azevedo relata ter ouvido, horas antes de um amistoso entre Brasil e Marrocos, um homem na sala de espera de um exame de imagem afirmar que a Seleção não teria chance de conquistar a Copa do Mundo por suposta incapacidade dos brasileiros, atribuída, segundo o interlocutor, a políticas do atual governo. O colunista usa o episódio para ilustrar a persistência do sentimento descrito por Rodrigues.
Na avaliação do autor, o significado original do “complexo de vira-latas” mudou nas últimas décadas e passou a servir para desqualificar adversários políticos e sociais.
Azevedo liga essa análise ao editorial de O Globo intitulado “Incúria fiscal de Lula e Congresso é crime contra o país”. O colunista resume que o jornal critica manobras fiscais atribuídas ao governo federal e ao Congresso, afirma que não há limites para os gastos e conclui que a administração e os parlamentares levariam o país à bancarrota se reeleitos.
O artigo também recorda que, em 1º de abril de 1964, O Globo celebrou a intervenção militar que depôs o presidente João Goulart, chamando aquele período de “dias gloriosos”, e que, em 31 de agosto de 2013, o grupo reconheceu ter errado ao apoiar o golpe, admitindo que a ditadura restringiu liberdades individuais e perseguiu opositores.
Ao encerrar, Azevedo afirma que pretende alertar para o uso de uma retórica que, na visão dele, pode levar a movimentos golpistas, comparando o antigo “complexo de vira-latas” a um suposto “complexo de pit bull” presente em discursos da extrema direita e em críticas econômicas recentes.
Com informações de Metrópoles
