A perspectiva de um novo aumento tarifário dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros leva o PL a adotar duas frentes simultâneas: responsabilizar o governo Lula pela escalada comercial e apresentar o senador Flávio Bolsonaro como interlocutor capaz de negociar uma solução com Washington.
Pré-candidato ao Planalto, Flávio Bolsonaro afirma ter pedido diretamente ao presidente Donald Trump que empresas brasileiras fiquem fora das novas taxas e enviou carta ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, na qual defende diálogo para evitar prejuízos à economia nacional. Internamente, o PL avalia que a proximidade da família Bolsonaro com autoridades norte-americanas pode ser convertida em ativo político, e não em desgaste.
A movimentação ocorre enquanto o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) avança na investigação aberta sob a Seção 301 da legislação comercial. O relatório preliminar questiona regulação de plataformas digitais, decisões judiciais sobre redes sociais, previsibilidade regulatória, combate à corrupção, sistemas eletrônicos de pagamento e barreiras comerciais consideradas lesivas aos interesses norte-americanos. Diante desses pontos, o órgão recomendou tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, com possibilidade de aplicação em 15 de julho de 2026.
O estrategista internacional Cezar Roedel avalia que Brasília, ciente da apuração, dispunha de tempo para negociar mas não tomou medidas efetivas. Nesse quadro, ele considera tardia qualquer iniciativa atual.
A oposição trabalha para consolidar a narrativa de que a crise decorre do Palácio do Planalto. O deputado Cabo Gilberto Silva, líder oposicionista, classifica a política externa de Lula como irresponsável e sustenta que o governo prejudica o país para permanecer no poder.
No núcleo da pré-campanha, a ordem é reforçar a imagem de Flávio como defensor de empregos, exportações e setores produtivos. Parte da sigla sugere ir além, explorando a possibilidade de contato direto do senador com a Casa Branca caso as negociações oficiais fracassem. Aliados temem que a medida norte-americana fortaleça o discurso de soberania nacional do presidente, repetindo episódio anterior em que Lula transformou atrito comercial com os EUA em trunfo eleitoral. Há ainda receio de que o PT reforce a ideia de que setores da direita agem alinhados a interesses estrangeiros.
O cientista político Elton Gomes aponta ganhos e riscos para a direita. Segundo ele, a recente viagem de Flávio aos Estados Unidos resultou em benefício político imediato, após o governo Trump classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais, o que reforçou o discurso de segurança pública oposicionista. Contudo, a tarifa recomendada prejudicaria setores produtivos e poderia fortalecer Lula ao permitir novo discurso de soberania.
Na Câmara, o deputado Maurício Marcon considera que o tema não deve interferir significativamente na disputa de 2026. Ele sustenta que o Planalto já explorou politicamente tarifas anteriores, reduzindo espaço para ganhos extras do PT. Marcon argumenta que, se o governo se apresenta como competente em política externa, deve agora demonstrar capacidade de resolver o impasse.
Nas redes sociais, Flávio Bolsonaro busca se desvincular da decisão de Washington. Em entrevistas e vídeos, ele reitera ter pedido a Trump que evite novas taxas, afirma que tarifas não resolvem problemas e defende negociações “sérias”, acusando Lula de adotar bravatas. O parlamentar também sustenta que o presidente perdeu condições de sentar à mesa com os norte-americanos e se coloca como possível facilitador de diálogo.
Após a divulgação do relatório preliminar do USTR, o governo Lula contestou as conclusões, afirmou que os dados comerciais não sustentam as acusações, defendeu o Pix e a regulação digital brasileira e acusou Flávio Bolsonaro e aliados de trabalharem contra interesses nacionais. Para Cezar Roedel, o texto oficial tem caráter predominantemente político e evidencia falta de canais eficazes com a administração Trump. Elton Gomes considera que a nota apresenta argumentos técnicos sobre temas econômicos, mas dedica espaço maior a responsabilizar a oposição, oferecendo respostas limitadas a pontos de segurança jurídica, previsibilidade regulatória e combate à corrupção. Já o cientista político Adriano Cerqueira entende que o governo tenta desviar o foco da recente classificação de facções criminosas como terroristas.
Em Catalão (GO), Lula citou episódio da Inconfidência Mineira para questionar que destino mereceriam supostos “traidores da pátria”. Flávio Bolsonaro anunciou que ingressará com notícia-crime no Supremo Tribunal Federal, alegando incitação à sua morte. Historiadores registram que Joaquim Silvério dos Reis, delator de Tiradentes mencionado pelo presidente, não foi enforcado, tendo recebido perdão de dívidas e morrido anos depois.
Com informações de Gazeta do Povo
