Integrantes dos governos do Brasil e da Rússia reúnem-se nesta quinta-feira (5), em Brasília, na 8ª Comissão de Alto Nível de Cooperação (CAN). Segundo informações apuradas, a delegação russa pretende usar o encontro para defender sua fatia no fornecimento de fertilizantes ao agronegócio brasileiro, frente à expansão das exportações chinesas.
Os dados do Ministério do Desenvolvimento, Comércio, Indústria e Serviços mostram que o Brasil importou 44,3 milhões de toneladas de adubos e fertilizantes químicos em 2024, desembolsando US$ 13,5 bilhões. A Rússia respondeu por 27,3% desse volume e a China por 14,2%. Em 2025, as compras externas chegaram a 45,5 milhões de toneladas, ao custo de US$ 15,5 bilhões; a participação russa recuou para 25,9%, enquanto a chinesa avançou para 18,8%.
A alteração no quadro ocorre em meio à reorganização das cadeias globais de insumos, impulsionada pela guerra na Ucrânia, conflitos no Oriente Médio, dificuldades logísticas e elevação dos fretes. Produtores brasileiros passaram a optar por fertilizantes de menor concentração de nutrientes, estratégia que favoreceu fornecedores com maior escala e flexibilidade, entre eles a China.
A CAN foi suspensa em 2015, teria sido retomada em 2022, mas o então presidente Jair Bolsonaro adiou o encontro após a invasão russa da Ucrânia. A reunião agora retoma o formato com a presença do vice-presidente brasileiro Geraldo Alckmin, do primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin, do vice-primeiro-ministro Aleksei Logvinovich Overchuk e de oito ministros. O tema dos fertilizantes deve ser tratado pela ministra russa Oksana Nikolaevna Lut e pelo ministro da Agricultura do Brasil, Carlos Fávaro (PSD).
Analistas consultados avaliam que a disputa pelo fornecimento de fertilizantes tende a ganhar visibilidade no debate público em ano eleitoral. A forma como o governo demonstrar planejamento, diversificação de fornecedores e estímulo à produção local pode se converter em pressão política, dado o peso do agronegócio na economia nacional.
Para Cezar Roedel, mestre em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a movimentação russa integra uma agenda geopolítica mais ampla e não se restringe ao receio de substituição imediata pelos produtos chineses. Ele considera improvável que Moscou reverta a perda de espaço, pois as especificações técnicas exigidas pelos compradores brasileiros e a capacidade produtiva chinesa tornam a concorrência desfavorável aos russos no médio prazo.
Roedel lembra que as exportações russas de fertilizantes ajudam a financiar o esforço de guerra na Ucrânia, já que o setor costuma escapar de sanções internacionais por estar ligado à segurança alimentar.
O cientista político Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), observa que a expansão chinesa no setor de fertilizantes faz parte de uma estratégia de projeção de poder e amplia a influência de Pequim sobre países agrícolas exportadores, como o Brasil. Ele recorda que, tanto no governo Bolsonaro quanto no governo Lula, houve cautela para evitar atritos com o Kremlin diante do risco de interrupção no suprimento.
Na opinião da diretora-executiva da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Patrícia Arantes, mesmo com a redução da fatia russa nas importações brasileiras, a Rússia continuará relevante no cenário internacional por concentrar grande parte da produção mundial. Segundo ela, o país mantém influência sobre preços, oferta e logística globais, enquanto a China não demonstra interesse em tornar-se fornecedora exclusiva do Brasil.
Com informações de Gazeta do Povo
