Pesquisadores dos centros Glenn e Johnson da NASA, em parceria com a Case Western Reserve University, descrevem uma missão que investigará como diversos materiais queimam na superfície da Lua. O estudo, apresentado em artigo recente, indica que a menor gravidade lunar torna o movimento de gases quentes mais lento do que na Terra, permitindo à chama receber oxigênio por mais tempo e permanecer acesa em materiais que, em solo terrestre, poderiam se apagar rapidamente.
O comportamento distinto do fogo em baixa gravidade representa um desafio para futuras expedições humanas, sobretudo diante dos planos de manter presença permanente no satélite natural. Tradicionalmente, a agência utiliza o procedimento NASA-STD-6001B para checar a inflamabilidade de componentes de voo, aplicando uma chama de 15 centímetros à base de amostras dispostas verticalmente. Caso a queima ultrapasse essa altura ou provoque gotejamento de detritos incandescentes, o item é reprovado. Porém, todo o ensaio ocorre em ambiente de 1G.
No espaço, a ausência de orientação clara para cima ou para baixo altera o formato das chamas. Na Estação Espacial Internacional (ISS), esses focos formam esferas que se expandem lentamente e dependem da ventilação da estação para continuar queimando. Desligar o sistema de circulação de ar pode apenas retardar o fogo, gerando fumaça que reacende quando a ventilação retorna.
Para compreender a física envolvida, a NASA já acendeu aproximadamente 1.500 pequenas chamas a bordo da ISS, mas evita incêndios de grande porte em áreas habitáveis. Como alternativa, executa o Spacecraft Fire Safety (Saffire) em cápsulas de carga Cygnus não tripuladas, desacopladas da estação e direcionadas à reentrada. Nesses testes, folhas de algodão/fibra de vidro, tecido e acrílico foram queimadas em microgravidade, revelando chamas que às vezes se propagavam contra o fluxo de ar e apresentavam temperaturas mais altas em materiais finos.
Os resultados do Saffire evidenciaram diferenças entre o padrão NASA-STD-6001B e o fogo em microgravidade, motivando o próximo passo: o experimento Flammability of Materials on the Moon (FM2). O aparelho, previsto para voar em uma missão Commercial Lunar Payload Service (CLPS), conterá quatro amostras de combustível sólido dentro de uma câmara selada. Câmeras, radiômetros e sensores de oxigênio registrarão a queima durante minutos sob gravidade lunar — condição que não pode ser reproduzida em laboratórios terrestres.
O FM2 fornecerá dados que conectam estudos anteriores em 1G e gravidade zero às condições parciais da Lua. Ainda não há definição sobre eventuais atualizações do padrão da agência, mas a missão deve oferecer as primeiras medições diretas do comportamento de chamas no próximo destino de presença humana contínua no Sistema Solar.
Com informações de Olhar Digital
