Estudos recentes apontam para a interocepção — percepção dos sinais internos do organismo — como um “sexto sentido” capaz de influenciar o bem-estar psicológico. A função detecta variáveis como frequência cardíaca, respiração, fome e temperatura, assegurando o equilíbrio dos sistemas corporais, conforme relataram em 2022 as psicólogas Jennifer Murphy, da Royal Holloway University of London, e Freya Prentice, do University College London, em artigo no The Conversation.
Os pesquisadores associam a acurácia interoceptiva a quadros de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e distúrbios alimentares. A hipótese em análise sustenta que a leitura de sinais internos, como tensão muscular e batimentos cardíacos, fornece indícios sobre a segurança de uma situação; falhas nesse processo poderiam favorecer o surgimento dessas condições. Um exemplo citado envolve pessoas ansiosas, que perceberiam de forma acentuada a própria pulsação durante interações sociais, aumentando o desconforto.
Murphy e Prentice revisaram 93 estudos publicados até 2022 e identificaram diferenças relevantes entre homens e mulheres: o público feminino demonstrou menor precisão interoceptiva, sobretudo em tarefas ligadas ao ritmo cardíaco. As autoras sugeriram que essa disparidade pode contribuir para a maior incidência de ansiedade e depressão entre mulheres após a puberdade, embora reconheçam a complexidade do tema.
Em 2024, pesquisa divulgada na revista eBioMedicine avaliou o impacto da fome sobre o humor. Participantes com interocepção mais desenvolvida apresentaram variações de humor menores do que aqueles com percepção fraca. Segundo o psicólogo médico Nils Kroemer, da Universidade de Tübingen e autor correspondente do trabalho, esses voluntários continuaram sentindo fome, porém conseguiram manter a estabilidade emocional.
Cientistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles testaram a hipótese de que pessoas com anorexia nervosa deixam de perceber a sensação de fome. Para isso, utilizaram uma cápsula vibratória ingerível e constataram a dificuldade desses pacientes em captar estímulos intestinais, mesmo após a recuperação de peso. O neurocientista Sahib Khalsa, autor sênior do estudo, observou que o sistema nervoso processa tais sensações de forma atípica, reduzindo a confiança nesses sinais e contribuindo para a persistência dos sintomas.
Nem todos concordam com a categoria ampla de interocepção. Artigo de opinião liderado pelo cientista cognitivo Felix Schoeller, do MIT, publicado em 2024 na Frontiers in Psychology, afirmou que o conceito reúne fenômenos distintos sob um único rótulo. O pesquisador Barry Smith, da University of London, acrescentou que o ser humano poderia possuir até 33 sentidos diferentes.
Apesar das divergências conceituais, Murphy e Prentice destacaram que compreender os fatores que afetam a capacidade interoceptiva pode, no futuro, auxiliar no desenvolvimento de tratamentos mais eficazes para diversos transtornos mentais.
Com informações de Olhar Digital
