As urnas do domingo, 4 de outubro de 2026, deram duas vitórias consideradas históricas para a direita. No primeiro turno da eleição presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto a composição do novo Congresso indica apoio suficiente para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF).
O principal avanço conservador ocorreu no Senado. O PL elegeu 19 parlamentares e deve iniciar a próxima legislatura com 28 cadeiras, formando a maior bancada partidária em começo de mandato desde 1988. Contando senadores de outras siglas, o bloco que se declara favorável a processos de impeachment soma 49 integrantes, cinco a menos que os 54 votos exigidos para condenação por crime de responsabilidade.
Em ato realizado na Avenida Paulista, em junho de 2025, Jair Bolsonaro defendeu a necessidade de conquistar metade das vagas da Câmara e do Senado para modificar o país mesmo fora do Palácio do Planalto. Segundo a apuração, o Congresso que tomará posse em 2027 influenciará a Presidência, avaliará indicações ao STF e discutirá reformas estruturais para limitar decisões do Judiciário.
Apesar de estar preso e impedido de se manifestar publicamente, Bolsonaro ajudou a eleger centenas de apoiadores, colocou o filho mais velho à frente da disputa presidencial, garantiu mandatos para a esposa e outro filho no Senado e assegurou a eleição de mais um herdeiro para a Câmara. Governadores alinhados ao ex-presidente também saíram vitoriosos já no primeiro turno.
Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno com vantagem considerada pequena, mas reforçada por resultados estaduais favoráveis e pela expectativa de atrair eleitores da chamada terceira via. No grupo de governadores eleitos no primeiro turno estão Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Cleitinho (Republicanos-MG) e Sergio Moro (PL-PR), palanques vistos como estratégicos para a fase final da disputa.
Na Câmara, Nikolas Ferreira (MG) e Lucas Pavanato (SP), ambos do PL, bateram recordes individuais acima de 3 milhões de votos, fenômeno atribuído à mobilização digital. A presença deles e de outros novatos fortalece a pressão por mudanças no Judiciário.
Desde a redemocratização, nenhum candidato que liderou o primeiro turno perdeu a eleição no segundo. Para ampliar a margem, a campanha de Flávio Bolsonaro reúne aliados eleitos a fim de demonstrar capacidade de governo. Lula, por sua vez, enfrenta dificuldade para buscar votos adicionais à esquerda.
No quadro de derrotas, Ronaldo Caiado (União-GO) manteve influência estadual ao eleger o sucessor Daniel Vilela (MDB) e ver a esposa Gracinha Caiado (União) chegar ao Senado. Romeu Zema (Novo-MG) terminou com 0,27% dos votos para presidente, mas o partido ampliou sua representação.
Pelo lado da esquerda, Gleisi Hoffmann (PT-PR), Randolfe Rodrigues (PT-AP), Simone Tebet (PSB-SP), Marina Silva (Rede-SP), Soraya Thronicke (PSB-MS) e Manuela D’Ávila (Psol-RS) não conseguiram vaga no Senado. José Dirceu (PT-SP) obteve menos de 80 mil votos e não voltou à Câmara.
O avanço da direita e da centro-direita confirma tendência observada nas últimas eleições municipais. As quedas de Ciro Nogueira (PP-PI) e Renan Calheiros (MDB-AL) indicam renovação de lideranças. No Nordeste, contudo, Ceará e Bahia permanecem como redutos petistas.
No plano estadual, Patrus Ananias (PT) perdeu em Minas Gerais, e João Campos (PSB) foi derrotado em Pernambuco, fato apontado como sinal de prejuízo político do apoio de Lula. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD) ficou atrás de Douglas Ruas (PL), resultado interpretado pelos aliados de Bolsonaro como demonstração de fragilidade do presidente.
Os atuais presidentes do Congresso também enfrentaram reveses. No Amapá, o grupo de Davi Alcolumbre (União) perdeu o governo para Antônio Furlan (PSD), enquanto Rayssa Furlan (Podemos) conquistou vaga no Senado. Na Paraíba, Nabor Wanderley (Republicanos) não se elegeu senador, apesar do apoio do deputado Hugo Motta (Republicanos) e de Lula.
O novo mapa do Legislativo projeta Rogério Marinho (PL-RN) como favorito para presidir o Senado, e a votação expressiva de Nikolas Ferreira reforça a intenção dele de comandar a Câmara. Segundo aliados, intervenções dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes, do STF, no processo eleitoral estimularam o eleitorado conservador.
Lula entra no segundo turno sem a frente ampla de 2022, enquanto Flávio Bolsonaro tenta atrair União Brasil e PP. O dirigente do PL, Valdemar Costa Neto, ganha destaque nas negociações que antecedem e sucederão a votação de 25 de outubro.
A convocação ao voto útil concentrou forças na direita, que explorou temas como economia, segurança, corrupção e rejeição ao governo. A disputa assumiu contornos de julgamento de Lula, prestes a se aposentar da política. Em parte da esquerda, o avanço local do PSOL sobre o PT sugere cenários pós-lulismo.
Caso se reeleja, Lula encontrará um Congresso mais hostil e pressão maior por reformas institucionais. Analistas apontam possibilidade de trajetória semelhante à de Dilma Rousseff, afastada em meio a crise econômica, impopularidade e falta de apoio parlamentar, circunstâncias que nem eventual alinhamento com o STF teria revertido.
Com informações de Gazeta do Povo
