A divulgação, nos últimos três meses, de vínculos atribuídos aos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro reacendeu o ambiente de rivalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) e intensificou a troca de acusações internas. Os colegas se queixam de decisões consideradas atípicas dos dois magistrados para controlar investigações e revidar vazamentos, o que, segundo eles, afeta a imagem pública da Corte.
O atrito tornou-se evidente depois de uma reunião reservada que terminou com o afastamento de Toffoli da relatoria do inquérito envolvendo o Banco Master. No dia seguinte, o site Poder360 divulgou transcrição literal das falas dos participantes. Integrantes do tribunal, em declarações sob anonimato à Folha de S.Paulo, sugeriram que o próprio Toffoli poderia ter gravado e divulgado trechos favoráveis a ele. O ministro negou de forma categórica e afirmou não compreender a origem da suspeita.
A mudança de relatoria ocorreu depois de mensagens extraídas do celular de Vorcaro indicarem pagamentos de R$ 35 milhões a uma empresa da família de Toffoli na venda do resort Tayayá, no interior do Paraná.
Outro foco de tensão apareceu na quarta-feira, 18, quando Moraes determinou operação de busca e apreensão contra servidores da Receita Federal suspeitos de repassar dados fiscais sigilosos de ministros e parentes. Sem terem sido informados previamente, alguns colegas reclamaram e, em conversa reservada com o jornal O Globo, um deles questionou se Moraes pretendia formar dossiês com os documentos requisitados.
Em janeiro, Moraes instaurou, de ofício, investigação sigilosa no inquérito das fake news para apurar o vazamento de informações fiscais. Um mês antes, O Globo noticiou que o patrimônio da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, aumentou de R$ 24 milhões para R$ 79,7 milhões entre 2023 e 2024, além de contrato de R$ 129 milhões firmado pelo escritório da família com o Banco Master. Procurados na época pela Gazeta do Povo, o escritório e a instituição financeira informaram que não comentariam.
Para colaborar com o inquérito, a Receita iniciou auditoria interna a fim de rastrear acessos sem justificativa a dados de magistrados e familiares. A medida alimentou a suspeita de que Moraes possa ter obtido os mesmos documentos. Um ministro próximo relatou ao portal Metrópoles que Moraes estaria decidido a identificar os responsáveis pelo vazamento e que seus alvos incluiriam banqueiros, integrantes do Executivo e jornalistas.
Paralelamente, a proposta do presidente do STF, Edson Fachin, de aprovar um código de ética interno provocou reação de um grupo de ministros, que passou a veicular críticas por meio da imprensa. Entre elas, circula o apelido “Frachin”. Uma colunista do UOL relatou em programa de rádio que uma das filhas advogadas de Fachin defende a usina de Itaipu no Superior Tribunal de Justiça e disse ter sido alertada sobre o tema por um ministro, sem saber o valor dos honorários.
Questionamentos sobre a atuação de parentes de magistrados em escritórios de advocacia são frequentes há anos. Em 2023, o STF autorizou juízes a julgarem processos de clientes de firmas nas quais familiares trabalham, desde que estes não atuem diretamente na causa, decisão criticada pela possibilidade de favorecimento. No caso Master, O Globo revelou mensagens de Vorcaro com propostas de contrato para uma ex-esposa de Toffoli representá-lo no Supremo.
Conflitos públicos entre ministros já ocorreram em períodos anteriores. No julgamento do mensalão, em 2012, Joaquim Barbosa trocou ofensas com Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski. Durante a Lava Jato, formaram-se grupos punitivistas e garantistas que discutiam abertamente em plenário, episódio que incluiu, em 2018, ataque verbal de Luís Roberto Barroso a Gilmar Mendes. Entre 2019 e 2022, a maioria se uniu diante das críticas do então presidente Jair Bolsonaro, união que se manteve até o fim do julgamento que condenou o ex-mandatário por tentativa de golpe. Após a saída dele da cena política e o avanço do caso Master, as divisões ressurgiram.
A crise de confiança coincide com queda de popularidade do tribunal. Levantamento Quaest divulgado em 12 de fevereiro mostra que 82% dos entrevistados defendem a criação de um código de ética para os ministros. A pesquisa, encomendada pela Genial Investimentos, ouviu 2.004 pessoas de 16 anos ou mais entre 5 e 9 de fevereiro, com margem de erro de dois pontos percentuais e 95% de confiança.
Os episódios recentes consolidaram o desgaste interno e reforçaram a percepção pública de crise na Corte.
Com informações de Gazeta do Povo
