A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informou a diplomatas europeus que teria detectado ações dos Estados Unidos e da Rússia para influenciar as eleições presidenciais de 2026, disputadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL). A divulgação do documento, revelada inicialmente pela agência Reuters, gera debate político e eleitoral e, segundo especialistas, pode sustentar iniciativas judiciais para questionar o resultado das urnas.
A reunião em que o assunto foi tratado ocorreu em Brasília entre 9 e 11 de setembro de 2026, com representantes de órgãos de inteligência e regulação da França e da Alemanha. Na ocasião, a Abin relatou supostas manobras norte-americanas que iriam de práticas de “lawfare” a ações declaradas, além de mencionar tentativas russas, embora com menor detalhamento. Dados de cibersegurança do governo apontam quase o dobro de ataques cibernéticos e investidas de phishing contra a Presidência da República em relação ao ano anterior.
Os desdobramentos institucionais incluíram a abertura de inquérito pela Polícia Federal, a pedido da Advocacia-Geral da União (AGU), para apurar o repasse de US$ 1 milhão do Human Rights and Democracy Fund, mantido pelo governo dos EUA, a entidades que atuam no Brasil. A investigação procura identificar origem, destino e finalidade dos recursos, além de possível participação de beneficiários em ações contra instituições brasileiras.
Analistas veem lacunas no material apresentado. O cientista político Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), destaca a dificuldade de obter provas públicas sobre operações clandestinas e afirma que, com as informações divulgadas, não é possível concluir que Washington ou Moscou tenham capacidade de determinar o resultado eleitoral brasileiro.
Cezar Roedel, doutor em Filosofia e mestre em Relações Internacionais, observa que a Abin teria sido mais específica ao descrever condutas dos EUA do que as da Rússia, o que, segundo ele, exige maior transparência. Roedel aponta ainda o potencial uso político de dados da agência, subordinada ao Executivo, lembrando que Lula associa publicamente a tese de ingerência ao entorno de Flávio Bolsonaro e à proximidade deste com o ex-presidente norte-americano Donald Trump. Para o analista, não há elementos suficientes que indiquem preparação do governo para contestar o pleito, mas a possibilidade merece acompanhamento.
O cenário eleitoral reflete orientações geopolíticas distintas: Flávio Bolsonaro mantém afinidade com democracias ocidentais e o campo conservador ligado a Trump, enquanto Lula mantém proximidade com Moscou e Pequim e respalda o bloco dos BRICS, que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Elton Gomes observa que, apesar das inclinações ideológicas, o peso da diplomacia econômica impede alinhamentos automáticos, porque o Brasil depende dos EUA para tecnologia e mercado de produtos de maior valor agregado e, simultaneamente, de China e Rússia para exportação de commodities e fornecimento de fertilizantes. O professor avalia que a tradição pragmática tende a prevalecer, independentemente de quem vença a eleição.
No campo jurídico, o Partido dos Trabalhadores apresentou petição ao Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro Flávio Dino, solicitando investigação da suposta ingerência norte-americana em todas as etapas do processo eleitoral. O PT pretende criar um mecanismo que impeça instituições financeiras e plataformas digitais de cumprir no Brasil sanções externas, como as previstas na Lei Magnitsky, ou ordens estrangeiras de remoção de conteúdo. Especialistas em Direito Constitucional alertam que decisões do STF têm alcance limitado fora do país e podem expor empresas a conflitos normativos, ampliando a insegurança jurídica em meio à disputa eleitoral.
Com informações de Gazeta do Povo
