O estômago evita a própria destruição graças a um sistema de defesa composto por três elementos: uma película de muco misturada a bicarbonato, junções firmes que mantêm as células unidas e uma renovação celular que troca todo o revestimento interno a cada três a cinco dias.
Sem esse conjunto protetor, o suco gástrico produzido para degradar proteínas consumidas na alimentação destruiria o órgão. O ácido clorídrico, principal componente desse suco, mantém o pH entre 1,5 e 3,5 — faixa próxima à acidez do limão e capaz de danificar tecidos vivos em poucos minutos. Essa substância é gerada por células específicas da mucosa estomacal, ativa a enzima pepsina, responsável pelo início da quebra das proteínas, e serve como barreira inicial contra bactérias ingeridas com os alimentos.
Como o ácido não distingue as proteínas dos alimentos das proteínas das células do próprio estômago, a mucosa produz uma camada espessa de muco e libera bicarbonato em seu interior, neutralizando o ácido antes que ele atinja as células vivas. Essa combinação cria um gradiente de acidez: extremamente ácido no centro do órgão e praticamente neutro junto à parede. Além disso, estruturas conhecidas como junções firmes impedem que o ácido escorra entre as células.
O revestimento celular é substituído continuamente em um ciclo de três a cinco dias; qualquer célula danificada é descartada antes de provocar complicações. Uma úlcera surge quando essa barreira falha em algum ponto, permitindo que o ácido alcance camadas mais profundas do tecido e forme uma lesão. Os fatores mais frequentes para essa ruptura são o uso constante de anti-inflamatórios, que reduzem a produção de muco e bicarbonato, e a infecção pela bactéria Helicobacter pylori.
Até a década de 1980, atribuía-se as úlceras a estresse, alimentos apimentados ou produção excessiva de ácido. Essa interpretação mudou após a atuação dos médicos australianos Barry Marshall e Robin Warren, que identificaram a H. pylori como causadora de uma inflamação crônica na mucosa gástrica, a gastrite, capaz de evoluir para úlcera e, em parte dos casos, aumentar o risco de câncer de estômago. Para demonstrar a hipótese, Marshall ingeriu uma cultura da bactéria em 1984 e desenvolveu gastrite confirmada por biópsia. A dupla recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2005 por essa descoberta.
No Brasil, a infecção é comum: estimativas citadas pela Revista da Federação Brasileira de Gastroenterologia indicam prevalência superior a 70% da população, com índices mais altos em regiões com menor acesso a saneamento básico e água tratada, já que a transmissão ocorre principalmente por via oral-oral ou fecal-oral. A maioria dos portadores permanece assintomática, mas, diante de dor estomacal persistente, o exame para detectar a H. pylori — atualmente simples e disponível tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na rede particular — costuma ser o primeiro passo antes de qualquer tratamento para úlcera.
Com informações de Olhar Digital
