O Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) registrou empate de 4 a 4, na tarde desta sexta-feira, 25 de setembro de 2026, ao deliberar se abriria apuração preliminar sobre a conduta do procurador-geral da República, Paulo Gonet, em razão de suposta proximidade com o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, controlador do liquidado Banco Master. As menções a Gonet foram encontradas em mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Vorcaro.
O relator do procedimento, subprocurador Francisco de Assis Sanseverino, posicionou-se contra a instauração da investigação interna e contra o afastamento de Gonet de processos que envolvem o Banco Master. Seu entendimento foi acompanhado por Celso de Albuquerque Silva, Alexandre Camanho e Chateaubriand Filho. Votaram pela abertura de apuração Janice Ascari, Samantha Chantal Dobrowolski, Ana Borges Santos e José Adônis Callou de Araújo Sá. Apesar da divisão, formou-se maioria para manter Gonet nos casos relativos ao banco.
Alexandre Camanho divergiu tecnicamente do relator ao sustentar que os pedidos não deveriam ser conhecidos por falta de legitimidade, afirmando ver “escassez absoluta” de indícios contra o procurador-geral. Para ele, não caberia ao colegiado avaliar eventual impedimento de Gonet, devendo ser observado o princípio da presunção de inocência.
Sanseverino argumentou que não vislumbrou impedimento ou suspeição do chefe do Ministério Público, destacando que o nome de Gonet não apareceu entre os contatos de Vorcaro e que as referências partiram de terceiros, sem registros de comunicação direta entre ambos. O relator classificou as saudações trocadas por mensagens como gentilezas, descreveu encontro ocorrido em Londres em 2024 como social e superficial e considerou especulativa a citação sobre a possível participação do filho de Gonet em evento no exterior em 2025.
Em voto divergente, Janice Ascari apontou a necessidade de esclarecer ligações entre o advogado de Vorcaro, Ciro Soares, e o procurador-geral, questionando quem teria iniciado contatos e se houve custos assumidos pelo ex-banqueiro. Samantha Chantal declarou que Gonet deveria ter se declarado impedido de emitir parecer que pedia a nulidade do relatório da PF que continha citações ao seu nome.
Esta é a primeira vez que a conduta de um procurador-geral da República é analisada pelo CSMPF. A eventual abertura de investigação poderia impactar processos ligados ao Banco Master e motivar pedidos de anulação de provas relacionadas a atos do PGR.
Os diálogos apreendidos mostram que, em março de 2025, Ciro Soares enviou foto com Gonet a Vorcaro e sugeriu uma ligação, seguida de quatro chamadas registradas pela PF. As mensagens também mencionam evento em Londres, em abril de 2024, para o qual Gonet teria confirmado presença e demonstrado expectativa sobre determinadas bebidas, além de manifestar, por intermédio de terceiros, desejo de que seu filho fosse incluído na viagem. O procurador-geral reconheceu ter estado com Vorcaro nessa ocasião, mas afirmou que o encontro foi breve, em ambiente jurídico patrocinado pelo Banco Master, e que não existiam procedimentos contra o banco naquele momento.
Outros trechos do material indicam que Vorcaro, ao falar com contato identificado como “Alexandre de Moraes”, relatou boa situação econômica do banco e mencionou suposta pressão do Ministério Público e da PF sobre o Banco Central. Segundo a PF, as referências a “Paulo” e “Andrei” seriam, respectivamente, a Paulo Gonet e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
A sessão do CSMPF foi conduzida pelo vice-presidente do colegiado, subprocurador-geral Nicolao Dino, já que Gonet não participou por estar sob análise. Com o empate, o conselho não aprovou a abertura de investigação preliminar nem o afastamento do procurador-geral dos processos envolvendo o ex-banqueiro.
Com informações de Gazeta do Povo
