A Polícia Federal ainda não conclui a análise de pelo menos três telefones do ex-banqueiro Daniel Vorcaro nem de cerca de 60 dispositivos eletrônicos recolhidos na Operação Compliance Zero. Investigadores calculam que o ritmo atual de exames, iniciados em nove fases de buscas, pode manter o trabalho em curso até 2027.
Em três apreensões distintas, agentes localizaram oito celulares ligados a Vorcaro; cinco deles passaram total ou parcialmente por perícia. O primeiro, recolhido em 17 de novembro, no dia anterior à primeira fase da operação, concentra a maior quantidade de documentos, contatos, conversas e arquivos multimídia considerados capazes de comprovar suspeitas de fraude bilionária, lavagem de dinheiro e cooptação de agentes públicos. Esse aparelho, de uso pessoal, tem criptografia avançada e mensagens apagadas. A PF obteve acesso integral ao conteúdo, mas ainda não finalizou o exame.
No total, cerca de 100 dispositivos — a maioria telefones — foram apreendidos com ao menos duas dezenas de alvos. Todos passam por procedimentos de correlação de dados com milhares de documentos físicos, que incluem contratos, planilhas, anotações e relatórios. Parte desse acervo é digitalizada por reconhecimento óptico de caracteres; outra parcela exige leitura manual especializada, o que retarda a investigação.
Fontes que acompanham o caso afirmam que a apuração se encontra em etapa intermediária, com possibilidade de novas fases durante o período eleitoral e ao longo de 2027, em razão do volume de recursos, do número de envolvidos e da complexidade da estrutura financeira sob suspeita.
Para acessar os celulares de Vorcaro, a PF utilizou softwares forenses após o ex-banqueiro se recusar a fornecer senhas. A extração de dados revelou listas de contatos, agendas, históricos de localização e mídias que, segundo o relator no Supremo Tribunal Federal, ministro André Mendonça, indicam uma rede envolvendo integrantes dos Poderes Executivo, Legislativo, judiciário de alta instância e o núcleo familiar do investigado.
A análise de mensagens recuperadas identificou grupos internos apelidados de “A Turma” e “Os Meninos”, supostamente formados por policiais, ex-agentes de segurança, hackers e operadores de confiança de Vorcaro. O material sugere monitoramento de desafetos, intimidações e acesso indevido a sistemas sigilosos. A defesa de Vorcaro nega essas condutas. Laudos apontam pagamentos e benefícios a policiais ativos e aposentados e a servidores do Banco Central e do BRB em troca de informações sobre investigações, fiscalizações e a venda do Banco Master ao BRB.
As perícias levaram a duas recusas da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República a propostas de delação premiada de Vorcaro, por falta de fatos novos além dos já identificados.
Entre os papéis apreendidos, peritos encontraram uma minuta não assinada de contrato de R$ 50 milhões, valor que corresponde ao montante restante de um acordo anterior de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, que nega prestação de serviços e recebimento de valores. O ministro não é investigado.
As investigações também examinam apontamentos que mencionariam conversas com o ministro, submetidos a verificação de integridade para conferir metadados e horários. Outras frentes verificam indícios de que gestores do mercado financeiro teriam vendido ativos ligados ao Master antes da liquidação extrajudicial, hipótese que pode alcançar o mercado de capitais.
A condução das perícias enfrentou entraves institucionais no início de 2026, quando o então relator Dias Toffoli limitou o acesso ao material a quatro peritos, o que paralisou os trabalhos por semanas. A situação foi revertida após a relatoria passar para André Mendonça, que redistribuiu os exames entre equipes da PF. Em maio de 2026, um perito foi afastado sob suspeita de vazar dados extraídos dos aparelhos, episódio que levou a sanções a outros agentes por suposta participação em rede de monitoramento ligada aos investigados.
Com o avanço das análises, relatórios técnicos, financeiros e institucionais continuam a gerar novas linhas de investigação e podem motivar etapas adicionais da Operação Compliance Zero.
Com informações de Gazeta do Povo
