No século XVIII, a aristocrata francesa Émilie du Châtelet revisou criticamente o “Principia” de Isaac Newton e demonstrou, por meio de experimentos, que o impacto de um corpo em movimento é proporcional à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade (mv²). A grandeza, posteriormente denominada energia cinética, aparece, séculos depois, na equação de Albert Einstein E = mc².
Nascida Gabrielle Émilie Le Tonnelier em Paris, em 1706, única menina entre seis irmãos, ela teve a aptidão científica reconhecida pelo pai, que convidou Bernard Le Bouyer de Fontenelle, então secretário da Academia de Ciências de Paris, para conversar com a filha sobre astronomia. Aos 12 anos, já falava latim, italiano, grego, alemão e francês.
Aos 18 anos, interrompeu os estudos ao casar-se com o marquês Florent-Claude du Chastellet, título que a tornou marquesa de Chastellet e mãe de três filhos. Depois do terceiro parto, aos 26, separou-se amigavelmente do marido, retomou os estudos e contratou professores como Louis Maupertuis, Johann Bernoulli e Alexis Clairaut. Expulsa de um café frequentado por intelectuais, voltou ao local vestida como homem para participar dos debates.
Morando em Cirey, em propriedade rural onde passou a viver com Voltaire, participou em 1738 de concurso da Academia de Ciências de Paris sobre a natureza do fogo. Os artigos apresentados por ambos receberam menções honrosas e foram publicados, e Émilie se tornou a primeira mulher com artigo científico divulgado pela instituição.
Em 1740, lançou “Instituições de Física”, obra que reuniu ideias científicas e filosóficas recentes. Sua principal realização, contudo, foi a tradução comentada do “Principia”, de Newton, para o francês. Ao incorporar o cálculo, identificou a controvérsia sobre qual grandeza media a “força” de um corpo: Newton defendia mv, enquanto seguidores de Gottfried Leibniz propunham mv².
Du Châtelet decidiu testar a questão deixando cair esferas de chumbo sobre argila. Observou que, quando a velocidade duplicava, a profundidade do impacto quadruplicava, indicando relação com o quadrado da velocidade. O resultado sustentou a existência de uma grandeza fundamental proporcional a mv², base conceitual da energia.
O fator quadrático reapareceu quando Einstein formulou E = mc², equação que descreve a conversão de massa em energia em estrelas e no universo primordial. Embora Einstein não dependesse diretamente de Du Châtelet, a tradição científica moldada por ela ajudou a esclarecer o significado de energia.
Grávida e consciente dos riscos do parto após os 40 anos, a marquesa concluiu a tradução do “Principia” poucos dias antes de dar à luz o quarto filho. Ela morreu logo após o parto. A edição francesa, publicada postumamente, continua sendo a única tradução completa da obra de Newton nesse idioma.
Além das contribuições científicas, Du Châtelet defendia a educação feminina, argumentando que negar esse direito significava abrir mão de metade do potencial intelectual da sociedade. Por esse legado, é lembrada como a mulher que, segundo a própria narrativa histórica, “enquadrou” Newton e sua equação.
Com informações de Olhar Digital
