O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia 2026 submetido a um Congresso descrito como mais autônomo e assertivo após três anos de derrotas do Executivo em votações e dificuldades de coordenação da base. Desde o fim de 2025, o governo intensifica negociações com partidos do Centrão e acelera a liberação de emendas, mas o clima de confronto permanece.
A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, assumiu a articulação política em março de 2025, porém parlamentares relatam que a troca não melhorou o relacionamento. Entre fevereiro e abril, cerca de metade dos 38 ministros deve deixar os cargos para disputar as eleições, inclusive a própria Gleisi, e esse movimento aumenta a incerteza sobre a governabilidade.
Analistas e congressistas ouvidos pela reportagem avaliam que o endurecimento do discurso à esquerda, o frequente recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF) para reverter decisões legislativas e a priorização da base ideológica agravam o distanciamento entre os Poderes. Líderes do União Brasil, Republicanos e PSD apontam descumprimento de acordos, falhas na execução orçamentária e falta de orientação clara em votações.
Em 15 de dezembro de 2025, Lula reconheceu que sua equipe não conseguiu convencer parte do Congresso. A crise ganhou visibilidade em novembro, quando os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não compareceram à sanção da lei que isentou do Imposto de Renda quem recebe até R$ 5 mil. Ambos também se ausentaram da cerimônia de 8 de janeiro de 2026, ocasião em que Lula vetou integralmente o projeto de dosimetria relacionado aos atos de 2023.
Motta expressou descontentamento com o uso do STF para reverter decisões da Câmara, enquanto Alcolumbre se irritou com a escolha de Jorge Messias para o STF, preferindo o nome do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Na avaliação da oposição, o governo erra ao insistir na polarização e ao afastar o Parlamento das decisões centrais, o que permite à direita obter vitórias mesmo sendo minoria.
A atuação de Gleisi é descrita por parlamentares como ideológica e pouco pragmática. A mudança no comando da articulação, com a saída de Alexandre Padilha para o Ministério da Saúde, teria intensificado o clima de confronto. Internamente, Lula reforça alianças com figuras à esquerda, como o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), nomeado para a Secretaria-Geral da Presidência.
Especialistas citam que a judicialização da política, acentuada desde a crise no governo Dilma Rousseff, enfraqueceu a negociação tradicional do presidencialismo de coalizão. Segundo essa análise, o Planalto busca frequentemente decisões favoráveis no STF em vez de construir maioria no Legislativo.
O ano eleitoral amplia a fragmentação, pois interesses regionais ganham peso nas votações. Até 19 ministros podem deixar os cargos para concorrer, entre eles o titular da Casa Civil, Rui Costa (PT-BA), que pretende disputar o Senado, além de Ricardo Lewandowski (Justiça) e Fernando Haddad (Fazenda), citados como peças-chave que saem nos primeiros meses de 2026.
No Congresso, lideranças partidárias também mudam. Na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ) deve ser substituído por Pedro Uczai (PT-SC), e no Senado há expectativa de alterações após embates envolvendo o líder governista Jaques Wagner (PT-BA).
Diante do impasse, o governo recorre à mobilização social. Em evento no Palácio do Planalto sobre os três anos dos atos de 8 de janeiro, Lula usou o veto ao projeto de dosimetria para reforçar a posição contrária à anistia. Campanhas petistas passaram a apresentar o Congresso como entrave às pautas do Executivo, estratégia que, segundo parlamentares, contribui para isolar ainda mais o Planalto.
Sem sinais de reversão, analistas preveem que a relação conflituosa entre Executivo e Legislativo deve persistir ao longo de 2026, com risco de novas derrotas para o governo.
Com informações de Gazeta do Povo
