A decisão do governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), anunciada em 23 de março de 2026, de deixar a pré-campanha presidencial reorganiza o cenário eleitoral e impõe ao PSD a tarefa de escolher entre dois projetos distintos: um alinhado à direita, encabeçado pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e outro de perfil de centro-esquerda, liderado pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.
O cientista político Antonio Lavareda observa que, até a desistência, o partido contava com três governadores interessados na corrida nacional; agora restam dois, cada qual com apelos próprios. Segundo ele, Caiado concentra o discurso no combate ao crime organizado, enquanto Leite sustenta a pauta de responsabilidade fiscal e de reconstrução administrativa. Para o professor do Insper Leandro Cosentino, persiste a dúvida sobre a viabilidade de mais uma candidatura situada à direita, além da de Flávio Bolsonaro (PL), ou de uma postulação considerada de centro, como a de Leite.
Nos bastidores, a saída de Ratinho Junior é tratada como movimento calculado para proteger capital político estadual e evitar riscos em uma disputa nacional incerta. A cientista política Letícia Mendes avalia que o governador preferiu preservar o legado no Paraná diante da fragilidade do apoio da família Bolsonaro no estado. Ela indica que o ambiente adverso levou Ratinho a não comprometer sua base.
A filiação do senador Sergio Moro ao PL, com intenção de disputar o governo paranaense, ampliou o risco na sucessão local. Permancendo no cargo, Ratinho Junior mantém o controle sobre o grupo político e resguarda um ativo considerado valioso para projetos futuros. O cientista político Samuel Oliveira entende que a desistência decorreu de resistência familiar e da necessidade de conduzir a sucessão estadual, sinalizando que o projeto presidencial ainda não estava maduro. Ele acrescenta que o governador pode se apresentar novamente em 2030, sustentado pelo legado construído no estado.
Convites para compor uma chapa como vice de Flávio Bolsonaro ou para disputar o Senado foram descartados por Ratinho Junior, que decidiu concluir o mandato e concentrar-se na agenda administrativa estadual.
Com a retirada do paranaense, Ronaldo Caiado surge como principal beneficiado dentro do PSD. Samuel Oliveira aponta que o goiano ganha projeção institucional, embora ainda precise ampliar competitividade fora da sigla. Na visão dele, Caiado pode tentar ocupar espaço do eleitorado alinhado à direita tradicional, mas corre o risco de não ser plenamente aceito por apoiadores de Jair Bolsonaro, a exemplo do que ocorreu com João Doria em 2022.
Especialistas lembram que a força de Caiado reside na ligação com o agronegócio e com o interior do Centro-Oeste. Eles indicam que o governador pode explorar o desgaste entre o setor e a família Bolsonaro ocorrido em julho, quando o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aplicou tarifas de 50% a produtos brasileiros, medida atribuída à articulação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que também defendeu a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Analistas ressaltam ainda que Caiado mantém proximidade com a família Bolsonaro, exemplificada pela participação, em 1º de março, em manifestação na Avenida Paulista em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à anistia aos presos de 8 de janeiro.
Do outro lado, Eduardo Leite continua como opção de centro. Pesquisas da Quaest divulgadas em março mostram o gaúcho com 3% das intenções de voto nos dois cenários testados, empatado com Romeu Zema em um deles. Os mesmos levantamentos apontam Ratinho Junior com 7% e Caiado com 4%, indicando menor competitividade de Leite no momento. O estudo ouviu 2.004 pessoas entre 6 e 9 de março, foi contratado pelo Banco Genial S.A., apresenta margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%, registrado no TSE sob o número BR-05809/2026.
Apesar da desistência de Ratinho Junior, o PSD reafirmou, por meio de nota divulgada no dia 23, que manterá candidatura própria à Presidência. O presidente da legenda, Gilberto Kassab, informou que a sigla apresentará o que chamou de “melhor via”, vista internamente como alternativa à polarização. Analistas consideram, contudo, que a manutenção de um nome serve também como instrumento de negociação para o segundo turno, num cenário ainda projetado como disputa principal entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro. A expectativa é medir o quanto do eleitorado de centro e centro-direita o partido conseguirá atrair no primeiro turno.
Com informações de Gazeta do Povo
